Manifesto Mampli

Por que faço eletrônica musical, e o que me move nesse ofício

Manifesto Mampli – Onde tudo começou

Desde muito cedo, fiquei encantado com o fato de que uma meia dúzia de pecinhas podia dar vida a tantas invenções. Lá por 1998, com uns 10 anos, vasculhando as coisas do meu pai, encontrei uma relíquia: quase toda a coleção da revista Bê-a-bá da Eletrônica, com plaquinhas coladas na capa com fita. Aquilo mudou tudo.

Pra quem não viveu isso: na década de 1980, o Brasil era mais colorido — até a eletrônica vinha em forma de gibi. A irmã da Bê-a-bá era a Divirta-se com a Eletrônica, uma revista que misturava histórias mirabolantes com circuitos de verdade: sirenes malucas, velas que nunca apagavam, intercomunicadores, temporizadores, jogos com LEDs… Um paraíso.

A Bê-a-bá era mais simples, como o nome sugere. Usava transistores, diodos, resistores, e o onipresente CI 555. O mundo fazia sentido até aparecer ele: o capacitor. Nunca entendi direito o que aquele “bichinho” fazia. E parecia estar em todos os circuitos! Mal sabia eu que levaria mais de uma década pra começar a entender...

Foram muitas leituras frustradas até que decidi montar meu primeiro projeto com meu pai: um intercomunicador. Um tipo de telefone de lata, só que eletrônico. Mas na minha cidade, não achava peça nenhuma: nem falante, nem porta-pilhas, muito menos os capacitores! Só os fios e uma saboneteira de plástico, que serviria de caixa. “Never”, como meu pai dizia…

Aquilo me deixou doido: na cidade dos eletrônicos, e eu sem peças pra montar os meus?! Outra inquietação que só fui entender anos depois.

Vieram brinquedos desmontados, broncas da minha mãe, barcos a motor, teleféricos, Ataris “nitrados”…

Em 2009 fui morar em Curitiba. Já tinha estudado circuitos elétricos, eletrônica, lógica, programação em C… mas ainda nada de montar os malditos circuitos. Ainda não tinha tocado num capacitor com propósito.

Foi então que o céu se abriu: descobri que Curitiba tinha uma rua inteira só de lojas de componentes eletrônicos. Com poucos reais, eu saía com 555, comparadores lógicos, flip-flops, displays de 7 segmentos… Toda vez que entrava na Beta, na Pares ou na Separ, lembrava do projeto do intercom: "Never sometimes happens", eu diria.

Nesse meio tempo, comecei a estudar música com mais seriedade. O baixo elétrico virou minha paixão. Mas tinha um problema: meu amplificador não tocava alto. Era só pra estudo. O todo poderoso Voxstorm de 40W com falante de 10”. A história de como esse cubo chegou até mim eu conto outra hora. Mas o dia que abri ele e vi só componentes discretos, quase chorei.

Como assim aquelas poucas peças faziam tudo aquilo?! Eu precisava entender. Precisava aprender a alterar aquele circuito, do meu jeito.

Dali pra frente, foi “só pra trás”, como diria meu amigo Thales. Saí da escola, dos professores e dos cursos online. Mergulhei nos fóruns, artigos, livros, datasheets — em inglês, espanhol, alemão, russo. Devorei tudo sobre áudio e circuitos. Mas, como o capacitor lá atrás, ainda faltava alguém que explicasse bem como tudo aquilo funcionava.

Isso já era 2014. Em 2015, minha vida virou mais uma página: fui morar na praia. Dois anos depois voltei casado com a Chris, minha companheira de guerra. Em 2018, já de volta em Curitiba, me vi cercado por pedais, instrumentos e amplificadores pedindo por conserto, por atenção, por... paixão. Decidi que seria isso.

E foi assim que nasceu a Mampli.

Em 2021, recebi o convite do amigo Fernando Schubert para dividir um espaço de criação com ele e outros dois luthiers incríveis: Thales Barros e Bogdan Skorupa. Mais que depressa aceitei. E foram quase três anos mágicos de trabalho naquela casinha no bairro Cristo Rei.

A Mampli não começou como uma marca, mas como um reencontro com aquilo que me encantou lá atrás.

Cada amplificador, cada pedal ou projeto que passa pela minha bancada é, de algum modo, um aceno àquelas revistinhas da infância. Um lembrete de que aprender é desmontar, montar, errar, rir, queimar dedo, e continuar.

Este blog nasce para contar essas histórias, sanar duvidas que todo mundo sempre me pergunta, compartilhar ideias, projetos, soluções... E talvez, um dia, ajudar outro moleque a entender o que diabos faz um capacitor.

Bem-vindo à Mampli.